OPINIÃO
Dom Azcona: ‘onde está a transparência’ do programa Avança Pará?
ARTIGOS
Nada mais oportuno no início desta nota de repúdio que as palavras do P. Antonio Vieira no sermão da Epifania, pregado na Capela real de Lisboa em 1662. “Sabeis quando foge o que não é verdadeiro pastor? Foge quando vê injustiças e em vez de bradar contra elas, as cala. Foge quando deveria sair a público em defesa da verdade e se esconde e esconde a mesma verdade debaixo do silêncio”. Lembremos como a palavra “pastor” se aplica na Bíblia tanto a quem tem autoridade religiosa como também ao Rei, Príncipes, Juízes, Autoridades …”
– NOTÍCIAS EM TEMPO REAL: participe do grupo do Notícia Marajó no WhatsApp e acompanhe tudo em primeira mão. Inscreva-se aqui no Grupo 1, aqui no Grupo 2, aqui no Grupo 3, aqui no Grupo 4, aqui no Grupo 5, aqui no Grupo 6, aqui no Grupo 7 aqui no Grupo 8, aqui no grupo 9, aqui no grupo 1, aqui no grupo 11 ou aqui no grupo 12. Ainda temos o Grupo 1 de Discussão e o Grupo 2 de Discussão. Nas redes sociais, siga-nos no Instagram, no Facebook e no Youtube.
O Programa “Avança Pará” é uma iniciativa do Estado do Pará em parceria com o Banco Mundial. “O projeto tem um recorte prioritário para a Região do Marajó com um aporte de 280 milhões de dólares dessa Instituição financeira internacional”.
Segundo a “Agencia Pará”, as Secretarias de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMAS), de Educação (SEDUC), Assistência Social. Trabalho, emprego e renda (SEASTER) participam até o fim desta semana (27/09/2023) de reuniões com representantes do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) mais conhecido como Banco Mundial para dar prosseguimento ao plano de estruturação e projetos do Governo do Estado”. (Agência Pará).
Nessa data o Senhor Ildo Lautharte coordenador do programa do Banco Mundial “declara que o programa já está em fase final”.
E aqui começa a féria das contradições. Nesse mesmo dia a Dra. Eliethe Braga Secretária de Estado de Planejamento e de Administração “destacou que a transparência e eficiência serão priorizadas na aplicação dos recursos. O Estado tem trabalhado não apenas na perspectiva de captar os recursos mas para cumprir com todas as suas etapas organizacionais para que haja transparência, seguridade e eficiência”.
A Dra. Eliethe assegura a transparência, seguridade e eficiência do Programa na aplicação dos recursos. Por outra parte, o representante do BM afirma que a elaboração do Programa está praticamente finalizada.
Como acreditar na representante do Estado e no do Banco Mundial quando de fato o programa AP tem sido elaborado desde o início até o final a portas fechadas? Sociedade Civil, Movimentos populares, Instituições, povo do Pará nem do Marajó não tem sido informados minimamente num assunto de tão grande transcendência e de máximo interesse público. Por que essa ocultação?
Como se explica esse silêncio diante do povo? Tão pouco o Estado nem o Banco Mundial tem oferecido uma notícia sequer sobre este Programa ao povo do Marajó, perpetuando assim em nossos dias o desprezo secular a um Arquipélago considerado de escravos, pessoas “de menor”, que precisam estar toda a vida acompanhados por monitores e pedagogos que saibam dominá-los como corresponde a um povo que não é povo, a um conjunto humano incapaz de autonomia, numa palavra, “nheengaibas” (de língua enrolada) como designavam os primeiros colonizadores portugueses aos habitantes deste Arquipélago.
Por outra parte, a Constituição Estadual, vigente no seu Artigo 13, parágrafo 2º declara: “O Arquipélago do Marajó é considerado área de proteção ambiental do Pará, devendo o Estado levar em consideração a vocação econômica da Região ao tomar decisões em
vistas do seu desenvolvimento e melhoria das condições de vida da gente marajoara”.
Até hoje esse dispositivo da Constituição Estadual permanece letra morta, melhor letra que mata. Nem mesmo se tem notícia de estudos objetivando a sua regulamentação ou de programas ou projetos voltados “a melhoria das condições de vida da gente marajoara”
tal como preconiza o mencionado dispositivo constitucional.
Sobre a pobreza – miséria da população marajoara paira a inércia dos políticos regionais: Governadores, Deputados, Prefeitos e Vereadores exceto algumas exceções que se voltam para os problemas da população unicamente quando se veem obrigados com ocasião das campanhas eleitorais.
A grande contradição que acompanha a aprovação do Programa Avança Pará consiste em que o Governador do Pará Helder Barbalho sancionou a Lei Nº 10.053 que permite ao Estado contratar operações de crédito externo de Instituições financeiras internacionais,
com a garantia da União no valor de US$ 580 milhões para estruturação dos programas “Descarboniza Pará” e “Avança Pará”. A sanção ocorre após a aprovação em turno único do projeto de lei enviado pelo Executivo à Assembleia Legislativa do Estado do Pará
(Alepa).
Onde está a transparência? Que significa transparência depois de decênios de esquecimento e desprezo de um artigo da Constituição do Estado transcendental para o Arquipélago do Marajó e seu futuro? Quando o “Avança Pará” é aprovado numa única sessão, turno sem conhecimento nenhum dos seus destinatários, no caso, o sofrido povo do Marajó. Assim tanto o Governo do Estado como a Assembleia Legislativa têm agido de modo anti-democrático e improprio do espírito e da letra republicanos.
Esta ausência de transparência básica suscita nos cidadãos um sentimento de elevada suspeita. De fato, se trata de um ato que desrespeita a cidadania, a dignidade e a justa soberania do povo do Marajó.
O Programa AP já em fase final de elaboração deverá ser enviado à Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) de novo antes da aprovação final. Podemos ainda abrigar a esperança de que por fim a Assembléia Legislativa realizará a regulamentação do Art. 13 da Constituição Estadual, determinação esta de vida ou morte para o território do Marajó?
Ou o esquecimento e o silêncio tanto da Alepa como o do Governo do Estado poderão ser entendidos como gesto genocida em conluio com o BM?
No mesmo nível de falta de transparência se poderia pedir uma explicação à Senhora Secretaria de Planejamento e Administração sobre a afirmação: “Estamos discutindo junto ao BM o andamento do AP” no momento em que o representante do mesmo Banco, Senhor Lautharte afirma que o Programa está praticamente elaborado”.
Do contrário o Programa AP estaria envolvido num misterioso e sistemático pacto do silêncio onde pelo que podemos ver enveredou também o BM. Por isso repudiamos com veemência os silenciamentos sistemáticos da elaboração deste Programa AP e o colonialismo bem conhecido na Amazônia e hoje tão diversificado e perverso…
Não estamos vendendo a Amazônia ao BM já no presente com efeitos desconhecidos para o futuro através de uma simples transação econômica tendo como moeda um Marajó desvalorizado e depreciado como refugo, por 280 milhões de dólares? Pela falta absoluta
de transparência e pela lógica do colonialismo parece que sim. Quem de nós marajoaras, paraenses conhece o BM e sua ética?
Este se define a si mesmo como Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento, mas diante do Programa AP é lícito duvidar das intenções retas, solidárias e humanizantes do mesmo… Reconstruir Marajó? O Banco Mundial desconhece o Marajó como grupo humano com identidade própria, ponto de partida este para a reconstrução de qualquer povo.
Sem dúvida ele possui um conhecimento do seu potencial econômico, as suas possibilidades enormes de penetração desde Marajó no Estado do Pará, de modo especial através de Belém, hoje capital da Amazônia brasileira e porta aberta para a mesma. O BM conhece também seus poderosos parceiros internacionais e os colaboradores diretos e prontos dentro da própria Amazônia para entregá-la ao dinheiro e ao projeto imperialista que se vislumbra no horizonte. Assim, não se reconstrói um povo e tão pouco grupo humano nenhum.
Por outra parte o BM se define a si mesmo como Banco de desenvolvimento. Este desenvolvimento, porém, não é compreendido como um processo de humanização integral, mas de escravização assistencialista (Pão e vida fácil!) e hipócrita num movimento de miserabilização degradante do mesmo e submisso ao jugo do dinheiro com o rosto sorridente: “Somos amigos da Amazônia!”.
A estrutura intrinsecamente assistencialista do AP como veremos em outro momento, levanta ondas de protesto e de repúdio para este tipo tão vergonhoso de humilhação, desprezo e abjeção.
Diante deste panorama podemos levantar ou sugerir legitimamente alguns questionamentos. Por que não construir a casa antes de começar com a limpeza da mesma? Por que o Estado do Pará não começa de uma vez a cumprir a Constituição Estadual e Federal com relação a Marajó? Por exemplo, por que se perpetuam entre nós à luz do sol crimes institucionais, verdadeiros atentados contra a Constituição? Onde está no Marajó a Defensoria Pública: “Instituição essencial à função jurisdicional do Estado incumbindo-lhe a orientação jurídica e a defesa, em todos os graus dos necessitados na forma do Art. 5, Inciso LXXIV”?.
Diante deste crime do Estado e da União por não intervenção desta no mesmo depois de decênios constatando que na maior parte dos municípios do Marajó não existe Defensor Público, como não abrir espaço para uma indignação justa e cidadã? E que pensar dos
municípios onde existe Defensor mas carregando este um peso insuportável forçado a atender às vezes como Promotor, como Delegado…e no Marajó onde perto da metade da população se encontra por debaixo da linha da miséria? Quando no Marajó “O Estado presta assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos?” (Cfr Art. 5, Inciso LXXIV).
A resposta invariável é esta: “Não tem orçamento para isso, não é possível agora. Não tem ainda concurso para provisão de Defensores”. E quando este acontece o Defensor nunca chega no Marajó!!!
Como é possível acreditar num Programa como AP definido não por valores humanos nem sociais, nem culturais mas puramente econômicos para uma população radicalmente injustiçada e desigual com 280 milhões de dólares a disposição dos únicos que no Marajó
“são iguais” diante da justiça?
Por que no Marajó só existe justiça para aqueles que podem pagar por ela: 1) Aqueles que possuem bens econômicos 2), Os políticos, seus familiares e amigos, 3) Os narcotraficantes e alguns pedófilos com dinheiro?
Estes são os “iguais” diante da justiça segundo a Constituição no Arquipélago do Marajó.
Aquela no entanto proclama: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade…”
(Cfr. Art. 5).
O Programa por tanto AP, está rolando fora da pista. “Banco Mundial e seu senhor representante Lauther, sem a base dos Direitos fundamentais da pessoa, no Marajó inexistentes, segundo define a Constituição Brasileira os seus fundamentos (Art. 1), não
é possível “reconstruir” nem “desenvolver” nenhum tipo de desenvolvimento, nenhum grupo humano, nenhum povo, nenhum território. E de nada serve o Programa sem esse desenvolvimento integral, sem essa ação profunda sócio-transformadora essencial a todo
desenvolvimento autêntico que nem compreende e nem imagina o BM. Aqui se trata, do ser ou não ser do Marajó. Por tanto, estamos diante do fracasso anunciado do mesmo Programa.
O Ministério Público, por sua parte, “Instituição permanente essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da Ordem Jurídica, do Regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis” (Art. 127), no Marajó é de fato problemático e em não poucos casos inexistente. Como defender por exemplo a ordem jurídica se esta no Marajó está organizada sobre Promotores que não de modo infrequente se vêem forçados a atender duas e até três Comarcas com as dificuldades de todos conhecida pela geografia do Arquipélago e pela enorme complexidade das suas problemáticas?
O Ministério Público conhece perfeitamente a impossibilidade de cumprir a Constituição nesta função essencial da justiça, devido a dificuldade estrema que oferecem os municípios do Marajó. Por que não reconhecer de uma vez tanto o Estado como a União esta lacuna grave de injustiça institucional e começar a “Defender o Regime democrático no Arquipélago” assim como “os interesses sociais e indisponíveis do mesmo como prescreve a Constituição? (Ibid).
Como por exemplo, o Promotor de Bagre pode ser ao mesmo tempo Promotor de Afuá? Que sentido da geografia marajoara tem o Ministério Público? Como residir na Comarca da respectiva lotação e cumprir assim a Constituição Federal? (CF. 129, inciso 9, Nº 2).
A justiça no Marajó não está assegurada para a população pelo número tão reduzido e desproporcionado de Promotores. Como por exemplo, recorrer ao Promotor em casos deabuso ou exploração sexual de menores ao faltar uma provisão adequada dos mesmos?
Como se pode explicar que uma carta de denúncia grave ao Procurador de justiça do Pará possa tardar seis meses para responder: “Temos investigado os fatos denunciados, temos conferido as informações do Promotor e constatado que são verídicas. Arquive-se,
arquive-se!…”.
“Avança Pará” entra no Marajó com 280 milhões de dólares com a ordem jurídica desmantelada e sem políticas públicas realistas. Não é lícito Senhor representante do BM, interrogar-se sobre o sentido concreto da reconstrução e do desenvolvimento do Marajó como preconiza o Bird numa geografia humana de tão grave violação de funções essenciais da justiça como no Arquipélago?
Por que apresentar um Programa como o AP imposto aos seus destinatários na calada da noite, nas sombras densas do silêncio diante dos cidadãos do Marajó e do Pará, sem diálogo nenhum, sem respeito mínimo aos Direitos Humanos e fundamentais da Nação
brasileira? (CF Art. 1).
Por fim, não podemos esquecer Senhor Governador, Helder Barbalho e Senhores membros da Assembléia Legislativa do Pará, a área tão delicada dos Delegados, Polícia Civil, Polícia Militar, sobretudo em alguns municípios mártires do Marajó, como por exemplo, Anajás, Melgaço, Bagre, Portel…
O estudo mais preciso e concreto das tarefas do Programa AP a serem desenvolvidas pelas Secretarias SEASTER, SEDUC e SEMAS será oferecido num segundo artigo.
Soure, 13 de outubro de 2023
* Dom José Luis Azcona Hermoso é Bispo Emérito do Marajó
ARTIGOS
Os Riscos dos CRA no Agronegócio: Quem São os Melhores Geradores de Recebíveis?
Nos últimos anos, os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) se consolidaram como uma ferramenta essencial para o financiamento do setor agropecuário. Empresas de diversos elos da cadeia – desde revendas de insumos até grandes produtores e fabricantes – têm recorrido a essa modalidade para financiar suas operações.
No entanto, a sustentabilidade dessas operações depende fundamentalmente da capacidade dos emissores de gerar recebíveis previsíveis e confiáveis. Alguns players do setor, como as revendas de insumos agrícolas, enfrentam desafios estruturais que comprometem essa previsibilidade.
Os recentes casos de Recuperação Judicial (RJ) no setor demonstram as fragilidades desse modelo.
A #Agrogalaxy, uma das maiores redes de distribuição de insumos do Brasil, operou por vários exercícios com margens negativas e prejuízos sucessivos, tornando-se um exemplo gritante da vulnerabilidade financeira que muitas revendas enfrentam.
Esse cenário agrava a percepção de risco dos CRAs emitidos por essas empresas e levanta questionamentos sobre a viabilidade de sua securitização no longo prazo.
Afinal, quem são os emissores mais seguros para lastrear os CRAs? Vou explorar essa questão. Desde já opiniões complementares e/ou divergentes são muito bem vindas.
O Desafio das Revendas de Insumos: Margens Baixas, Risco Jurídico e Incerteza Comercial
As revendas de insumos agrícolas, que atuam como intermediárias entre fabricantes e produtores, dependem fortemente da concessão de crédito aos clientes para manter seu fluxo de vendas. Contudo, essa estrutura apresenta riscos críticos que podem comprometer seriamente sua capacidade de honrar as obrigações financeiras assumidas nos CRAs.
1. Margens Operacionais Estreitas e a Percepção de Risco Aumentada
Muitas revendas operam com margens líquidas próximas de zero, insuficientes para absorver oscilações de mercado e, ainda menos, perdas decorrentes da inadimplência dos produtores rurais.
A Recuperação Judicial da #AgroGalaxy, que reportou prejuízos sucessivos e dificuldades na renovação da sua carteira de clientes, elevou a percepção negativa do setor. Agora, investidores exigem prêmios de risco mais elevados para adquirir os CRAs emitidos pelas revendas, encarecendo a captação de recursos para essas empresas.
O modelo de negócio das revendas, baseado na renovação das vendas com os mesmos clientes a cada safra, torna-se vulnerável quando há perda de credibilidade financeira. Além disso, eventuais “waivers” tornaram-se bem mais difíceis e, após as últimas revendas que ingressaram em RJ, os gatilhos para vencimentos antecipados por violação de “covenants” estão altamente sensíveis.
2. Risco de Inadimplência e Impacto da Recuperação Judicial de Pessoas Físicas
A crescente quantidade de Recuperações Judiciais deferidas para Pessoas Físicas do setor agropecuário é um fator de grande preocupação. Esse fenômeno compromete diretamente os recebíveis das revendas, reduzindo a previsibilidade de pagamento e ampliando significativamente o risco financeiro.
Além disso, se um cliente pessoa física falecer antes da liquidação do crédito, os pagamentos podem ficar bloqueados por meses (ou anos) devido ao processo de inventário, impactando inesperadamente o fluxo de caixa da revenda.
3. Incerteza Adicional de Riscos Ambientais e Barter
Medidas ambientais unilaterais, como a “Moratória da Soja”, introduzem um risco adicional para as revendas. Como essas empresas dependem das tradings para concluir operações de barter (troca de insumos por grãos), precisam garantir que os produtores conseguirão entregar os grãos dentro dos critérios exigidos.
O problema é que a maioria das revendas não possui um compliance robusto e um sistema eficaz de monitoramento ambiental, dificultando a verificação prévia da aptidão do produtor para cumprir com a entrega dos grãos de acordo com regulamentos ambientais, muitas vezes impostos por outros países.
Isso significa que, mesmo que a revenda financie a operação corretamente, pode enfrentar dificuldades graves caso o produtor seja posteriormente impedido de vender seus grãos devido a restrições ambientais – um risco alheio à atividade da revenda, mas que pode resultar em prejuízos significativos.
4. O Impacto dos Rebates e a Contaminação das Margens
Um problema frequentemente ignorado é a prática dos “rebates“, considerados ilegais nos EUA, mas amplamente utilizados no Brasil.
Os fabricantes pressionam as equipes comerciais das revendas a aumentarem suas vendas em troca de comissões ou rebates atrelados ao alcance de metas. Isso leva a um ciclo perverso: o fabricante ganha com o aumento do volume de vendas, o vendedor da revenda pode ter ganhos no curto prazo, mas a revenda, que arca com os riscos da operação e da inadimplência, podendo perder margem e assumindo um risco desproporcional.
Em um ambiente de margens já pressionadas e riscos elevados, essa prática fragiliza ainda mais a sustentabilidade financeira das revendas e, consequentemente, dos CRAs que elas emitem.
5. A Falta de Contratos de Longo Prazo com Agricultores
Diferentemente de grandes produtores, que possuem contratos estruturados com tradings e indústrias, a maioria dos agricultores não mantém contratos de longo prazo com revendas de insumos.
Isso significa que, a cada safra, a negociação precisa ser renovada, e os produtores podem simplesmente mudar de fornecedor conforme as condições de mercado. Esse fator compromete a previsibilidade da receita das revendas, minando a garantia da revolvência da carteira de clientes e tornando os recebíveis altamente incertos.
Com todos esses fatores, fica evidente que os CRAs emitidos por revendas de insumos apresentam alto risco estrutural, tornando sua viabilidade altamente questionável.
Quem São os Melhores Emissores de Recebíveis do Agro?
Diante das fragilidades das revendas, dois perfis de players se destacam como melhores geradores de recebíveis agrícolas:
- Agricultores Proprietários – Garantem previsibilidade operacional, possuem ativos imobiliários como garantia e têm acesso a crédito estruturado.
- Fabricantes de Insumos – Possuem margens mais elevadas, acesso a múltiplos instrumentos financeiros e maior capacidade de gestão de crédito.
A Securitização do Agro Precisa de Base Sólida
Os CRA desempenham um papel crucial no financiamento do agronegócio, mas sua viabilidade depende da solidez dos emissores e da qualidade dos recebíveis.
A emissão por revendas de insumos agrícolas apresenta riscos estruturais que vão desde margens apertadas e alta inadimplência até práticas comerciais prejudiciais, como rebates, ausência de contratos de longo prazo com agricultores, entre outros desafios recentemente evidenciados.
Para investidores, isso significa que a análise criteriosa dos lastros dos CRAs é essencial.
Desconfie de remunerações excessivamente atrativas, pois a estrutura do fluxo de caixa operacional da agricultura está muito apertada, restando pouco espaço para o pagamento de juros.
A emissão de títulos sem uma base sólida pode resultar em operações vulneráveis, com impactos negativos para o mercado de capitais e para o próprio agronegócio.
O desafio está posto: como garantir que a securitização do agronegócio seja viável a longo prazo? Esse debate precisa avançar, e a escolha criteriosa dos emissores será decisiva para o futuro do setor.
-
HOME4 dias atrásAdolescente some após pular na água no Ver-o-Rio, em Belém
-
HOME6 dias atrásSafra do açaí começa em agosto e pode reduzir preço do litro em até 40%
-
HOME5 dias atrásPrefeito de Santa Cruz do Arari assina termo para criação do Conselho Municipal da Juventude durante encontro no Marajó
-
HOME4 dias atrásHomem morre após descarga elétrica e fica preso a poste no Marajó
-
HOME5 dias atrásProgramação da 129ª edição do Círio de Nossa Senhora de Nazaré reúne momentos de fé, tradição e devoção em Portel, no Marajó
-
HOME4 dias atrásConta de luz no Pará pode subir 7,60% a partir de sexta, 7, afirma Dieese-PA
-
HOME5 dias atrásProjeto Rios de Proteção leva ações de enfrentamento à violência sexual infantil a Curralinho, no Marajó
-
ESPORTES4 dias atrásPalmeiras inicia preparação para jogo de volta contra o Fortaleza; Gómez treina no gramado e Paulinho vira preocupação