AGRONEGÓCIO
Crédito rural enfrenta déficit superior a R$ 100 bilhões e amplia endividamento de produtores, aponta análise
AGRONEGÓCIO
O anúncio do novo Plano Safra, que prevê R$ 610 bilhões em crédito para o agronegócio e a agricultura familiar, reacendeu o debate sobre a efetividade da política de financiamento rural no Brasil. Embora o volume de recursos represente um novo recorde, especialistas alertam que os valores anunciados nem sempre se convertem em crédito efetivamente disponível para os produtores.
Levantamento baseado na execução dos últimos programas de financiamento aponta que, nas safras recentes, aproximadamente R$ 100 bilhões em recursos previstos deixaram de chegar ao campo, ampliando as dificuldades financeiras enfrentadas por produtores rurais em diferentes regiões do país.
Diferença entre recursos anunciados e crédito liberado preocupa o setor
A análise mostra que o descompasso entre os valores divulgados pelo governo e o crédito efetivamente contratado aumentou nos últimos ciclos agrícolas.
Na safra 2023/2024, dos R$ 435 bilhões anunciados, cerca de R$ 419 bilhões foram efetivamente concedidos aos produtores.
Já na safra 2024/2025, o cenário tornou-se mais desafiador. Embora tenham sido anunciados R$ 476 bilhões, apenas R$ 382 bilhões chegaram aos produtores, resultando em uma diferença superior a R$ 90 bilhões, próxima da marca de R$ 100 bilhões apontada pelos especialistas.
Segundo a avaliação, essa redução na disponibilidade efetiva de recursos compromete o planejamento financeiro das propriedades e dificulta o acesso ao crédito em um momento de custos elevados de produção.
Juros elevados e exigências bancárias limitam acesso ao financiamento
De acordo com o advogado Gian Tozini, especialista em Direito Agrário e do Agronegócio do escritório Veríssimo e Viana, o principal desafio não está apenas no volume anunciado, mas nas dificuldades enfrentadas pelos produtores para contratar as linhas de financiamento.
Segundo o especialista, fatores como juros elevados, aumento das exigências de garantias e processos burocráticos acabam restringindo o acesso ao crédito oficial.
Na avaliação de Tozini, muitos produtores encontram obstáculos justamente no momento da contratação junto às instituições financeiras, o que reduz a efetividade dos programas de financiamento rural.
Menor oferta de crédito amplia pressão sobre o caixa das propriedades
O cenário de restrição ao crédito ocorre em paralelo aos impactos provocados pelas oscilações climáticas registradas nas últimas safras.
A combinação entre perdas de produtividade, custos elevados de produção e menor disponibilidade de recursos subsidiados aumentou a necessidade de capital de giro nas propriedades rurais.
Sem acesso suficiente às linhas oficiais, muitos produtores acabam recorrendo ao mercado de crédito privado, onde as taxas de juros costumam ser mais elevadas, elevando o custo financeiro da atividade e aumentando o risco de inadimplência.
Renegociação de dívidas cresce no agronegócio
O ambiente de maior pressão financeira também tem ampliado a procura por mecanismos de renegociação de passivos no setor rural.
Segundo Gian Tozini, a reestruturação das dívidas deixou de ser uma medida excepcional e passou a integrar o planejamento financeiro de diversas propriedades.
O especialista afirma que a renegociação pode contribuir para preservar o fluxo de caixa das atividades produtivas, permitindo maior previsibilidade financeira em um cenário de crédito mais restrito.
Além disso, recomenda que os produtores busquem orientação técnica e jurídica antes do agravamento das dificuldades financeiras, avaliando alternativas previstas na legislação para alongamento dos débitos e reorganização das obrigações.
Plano Safra continuará sendo determinante para o agronegócio
Apesar do volume recorde anunciado para o novo Plano Safra, o setor acompanhará nos próximos meses o ritmo de contratação das operações e a efetiva liberação dos recursos pelas instituições financeiras.
Para produtores, cooperativas e agentes do mercado, a disponibilidade real do crédito será decisiva para o financiamento da safra, aquisição de insumos, investimentos em tecnologia e manutenção da competitividade do agronegócio brasileiro.
A execução dos recursos anunciados deverá permanecer como um dos principais indicadores para medir a eficiência da política de crédito rural e sua capacidade de atender às necessidades do setor produtivo.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Café solúvel brasileiro ganha força nos EUA e setor acredita em isenção de tarifa de 25% proposta pelo governo americano
O café solúvel brasileiro saiu fortalecido das audiências públicas promovidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), realizadas em Washington, nas quais foi debatida a proposta de aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos exportados pelo Brasil. Após as apresentações das entidades brasileiras e norte-americanas, representantes do setor demonstraram otimismo quanto à possibilidade de o produto ficar fora da lista de itens sujeitos à sobretaxa.
A defesa foi conduzida pela Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), com apoio da BMJ Consultores Associados, do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) e da National Coffee Association (NCA), principal entidade representativa da indústria cafeeira dos Estados Unidos.
Café solúvel brasileiro é estratégico para a indústria dos Estados Unidos
Durante a audiência, a Abics destacou que o café solúvel produzido no Brasil ocupa posição estratégica na cadeia de abastecimento norte-americana. O produto é utilizado como matéria-prima na fabricação de bebidas prontas para consumo (Ready to Drink – RTD), panificação, confeitaria, produtos lácteos e serviços de alimentação.
A entidade ressaltou estudos que apontam crescimento médio anual de 5,6% do mercado norte-americano de bebidas prontas à base de café entre 2025 e 2030, reforçando que esse avanço depende de um fornecimento contínuo e competitivo de café solúvel brasileiro.
Além disso, grandes empresas dos setores de alimentos e bebidas, responsáveis por mais de 20% das vendas de café no varejo americano e por mais de 10% do consumo total da bebida no país, dependem diretamente desse abastecimento para manter sua produção e política de preços.
Brasil responde por 22% das importações de café solúvel dos EUA
Segundo os dados apresentados pela Abics, o Brasil foi responsável por aproximadamente 22% das importações norte-americanas de café solúvel, o equivalente a cerca de 15,5 mil toneladas métricas, fornecidas principalmente na forma de extratos, concentrados e grânulos destinados ao processamento industrial.
A associação também destacou que o café solúvel brasileiro possui características técnicas e padrões de qualidade reconhecidos internacionalmente, incluindo perfis específicos de solubilidade, diferentes origens e certificações como Classic, Premium, Excellence e 100% Arábica, atributos que não podem ser facilmente substituídos por outros fornecedores.
Tarifa pode elevar preços e pressionar inflação nos Estados Unidos
Outro ponto central da defesa foi o impacto econômico que uma eventual tarifa adicional poderia causar ao consumidor norte-americano.
Hoje, cerca de 11% da população dos Estados Unidos consome café solúvel diariamente, pagando entre US$ 0,06 e US$ 0,07 por xícara. Segundo a Abics, uma sobretaxa de 25% elevaria significativamente os custos da cadeia produtiva, reduzindo margens da indústria e aumentando os preços finais ao consumidor.
O diretor de Relações Institucionais da Abics, Fabio Sato, afirmou que a substituição do café brasileiro não seria simples.
Segundo ele, Brasil e México concentram quase 60% das importações norte-americanas de café solúvel, sendo que o produto mexicano possui preço aproximadamente 50% superior ao brasileiro. Além disso, países como Colômbia, Vietnã e Indonésia não dispõem de capacidade excedente suficiente para atender rapidamente uma eventual demanda adicional.
Impacto econômico recairia sobre empresas americanas
Outro argumento apresentado durante a audiência é que grande parte do valor agregado dessa cadeia produtiva permanece nos próprios Estados Unidos.
O café solúvel brasileiro é importado predominantemente a granel, enquanto etapas como mistura, embalagem, industrialização, marketing e distribuição são realizadas por empresas americanas.
Na avaliação da Abics, a aplicação da tarifa não penalizaria apenas o produto importado, mas aumentaria os custos da indústria instalada nos Estados Unidos, reduzindo sua competitividade e comprometendo investimentos no setor.
Logística e abastecimento também podem ser afetados
A entidade também alertou para possíveis impactos logísticos. Atualmente, mais de 81% das importações de café solúvel entram pelos estados do Texas, Nova York e Louisiana, com destaque para os portos de Nova Orleans, Nova York, Charleston e Los Angeles.
Uma redução no fornecimento brasileiro poderia gerar gargalos logísticos, comprometer o abastecimento industrial e provocar escassez de matéria-prima em importantes polos produtivos norte-americanos.
Defesa conjunta aumenta expectativa de isenção
Segundo o diretor de Relações Governamentais e Comércio Internacional da BMJ, José Pimenta, as manifestações da Abics, do Cecafé e da National Coffee Association foram complementares e reforçaram os impactos econômicos, sociais e industriais que uma eventual sobretaxa provocaria.
De acordo com ele, nenhum dos pronunciamentos recebeu contestação durante a audiência, fato considerado positivo pelo setor.
Na etapa destinada aos questionamentos dos representantes do governo norte-americano, as perguntas concentraram-se nos possíveis efeitos da medida para a cadeia industrial dos Estados Unidos, especialmente para o segmento de manufatura.
Para os representantes brasileiros, esse direcionamento reforçou os argumentos apresentados e aumentou a expectativa de que o café solúvel brasileiro seja incluído entre os produtos isentos da tarifa proposta pelo USTR, preservando o abastecimento do mercado norte-americano e evitando novos impactos inflacionários sobre consumidores e empresas.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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