REPORTAGEM DO ESTADÃO
Como é missão de médicos que fazem consultas gratuitas para indígenas na Amazônia
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O pescador Worlly, da aldeia Anambé, localizada em Moju, a cerca de 130 quilômetros de Belém, procurou um médico depois que o filho de 4 anos passou a madrugada vomitando. Durante a consulta, relata o cardápio: açaí, refrigerante, salgadinho… O indígena só se desanuviou quando ouviu que não era nada grave: bastava hidratação e repouso.
A cena, aparentemente corriqueira, ajuda a explicar uma das transformações mais profundas vividas hoje pelos povos indígenas na região Norte do País. Durante décadas, os principais desafios dessas populações estiveram ligados às doenças infecciosas, parasitárias, respiratórias, gastrointestinais e à desnutrição. Esses problemas continuam presentes.
Um novo conjunto de enfermidades, no entanto, avança pelas aldeias, de acordo com as lideranças. “O que a gente mais vê hoje em dia são casos de hipertensão e diabetes”, afirma Hakakwyi Lima Haraxare, liderança do povo Gavião Kyikatêjê, na Terra Indígena Mãe Maria, no sudeste do Pará. “E outra doença que afeta o mundo todo e está chegando na gente são as doenças mentais”.
O alerta encontra eco em outros diagnósticos. Estudo da Universidade Federal do Pará (UFPA) identificou a ocorrência de doenças metabólicas crônicas – hipertensão, obesidade e diabetes tipo 2 – em duas das seis comunidades analisadas. O estudo foi realizado na região do Rio Xingu, em Altamira, e exatamente na Terra Indígena Mãe Maria, no Pará, entre 2007 e 2014. Foram pesquisados 628 indígenas.
O coordenador da pesquisa, o médico e doutor em Ciências Biológicas João Guerreiro, relaciona os males não apenas a predisposições genéticas, mas a mudanças na alimentação e no estilo de vida das comunidades. Entre os fatores está a ingestão de carboidratos e alimentos processados, além daqueles ricos em açúcar e gordura, como refrigerantes e bolachas.
Neste ano, a Secretaria de Saúde Indígena, órgão do Ministério da Saúde, lançou o Guia de Promoção da Alimentação Adequada e Saudável nas Casas de Apoio à Saúde Indígena (Casai), documento que alerta para os riscos do consumo de alimentos ultraprocessados e busca valorizar práticas alimentares tradicionais.
A distância até o consultório é um obstáculo relevante. Nas aldeias, a presença médica ocorre por meio de escalas periódicas da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Fora dessas janelas, pacientes têm de percorrer longas distâncias. Da aldeia Kyikatejê até Marabá, por exemplo, são 70 quilômetros aproximadamente ou duas horas de ônibus.
Para contornar a dificuldade de acesso a especialistas, professores e estudantes da Afya, grupo voltado à educação e soluções médicas, realizaram consultas gratuitas entre os dias 21 e 23 de maio. Foi nessa missão de saúde que Worlly conseguiu atendimento. Semestralmente, o grupo faz esse mutirão de consulta na região.
A aldeia que desafia estereótipos
Toda a estrutura médica foi montada nas salas de aula da escola estadual dentro da aldeia Kyikatêjê, em uma paisagem que desafia estereótipos sobre os povos indígenas.
A primeira surpresa aparece na chegada à aldeia. Um muro alto e branco delimita a entrada. Há uma guarita povoada por seguranças uniformizados que controlam o acesso – o portão é de correr, com acionamento manual. Antes distante, o medo da violência também atinge áreas remotas da Amazônia, que tem sofrido com a escalada da invasão do narcogarimpo e da grilagem de terras.
Lá dentro, as ruas são de terra batida, o que não intimida os veículos. Caminhonetes de luxo e motos grandes dividem espaço com crianças correndo descalças. Sobre praticamente todos os telhados há antenas de internet via satélite. Não há casas de madeira cobertas por palha. Os adolescentes caminham pelo pátio com celulares nas mãos. Alguns acompanham vídeos nas redes sociais sentados à sombra árvores centenárias.
Boa parte desses recursos tem uma explicação. Os Kyikatêjê recebem verba de compensação socioambiental da Vale por causa da passagem da Estrada de Ferro Carajás e de linhas de transmissão operadas pela mineradora. Além disso, eles são reconhecidos historicamente pela gestão autônoma de suas atividades, organização e luta constante por melhorias.
Medicina aonde ela quase nunca chega
Um longo corredor com piso de cimento coberto por telhas de cerâmica liga as salas de aulas da escola que foram transformadas em consultórios.
As crianças observam aquele desfile de jalecos brancos. Algumas escondem o rosto; outras se aproximam lentamente, mas sempre grudadas na perna da mãe. Não foi necessário distribuir senhas ou enfrentar filas extensas. Havia profissionais suficientes para atender a demanda.
Para ampliar o alcance dos atendimentos, a missão foi programada durante o Festival da Safra da Castanha Nova, celebração que reúne povos indígenas de diferentes regiões do País, com intensa troca cultural.
Pacientes de sete aldeias diferentes — Terena, Gavião, Anambé, Assurini do Trocará, Suruí Aikewara, Xerente, Canela e Apinajé — aproveitaram a oportunidade para resolver demandas que normalmente exigiriam viagens de horas. Cerca de mil pessoas circularam pelo território.
Ao longo da ação foram realizados 95 atendimentos, entre consultas de medicina de família, clínica geral, pediatria, dermatologia e ginecologia.
Uma das pacientes que veio de longe foi Lena Bandeira, de 39 anos, do povo Gavião do Maranhão. Ela procurou atendimento após desenvolver uma irritação na pele durante o evento. Foi a primeira vez em sua vida que foi atendida por um dermatologista. “Fui bem recebida, passaram um comprimido e uma pomada. Esse atendimento ajudou porque eu realmente precisava.”
A médica Gabriela Cordeiro confirma a presença de indígenas com hipertensão e diabetes. “Os pacientes acabam se alimentando de uma forma diferente. A gente tenta orientar em relação a isso”.
O calor também exige atenção dos médicos. A vegetação da floresta tropical ajuda a amenizar os 33 graus, mas não elimina o desconforto. Por causa da temperatura, a camisa fica grudada nas costas e nos braços poucos minutos depois de sair do carro. Não há garrafinha d’água que resolva.
Nem a chuva forte que caiu na tarde de quinta-feira aliviou a sensação. Pelo menos trouxe o cheiro de terra molhada que remete à infância.
“Até os nossos atletas sentiram”, reconhece Reginaldo Xerente, secretário dos Povos Indígenas de Tocantínia, no Tocantins, sobre os efeitos da temperatura. “Alguns tiveram episódios de diarreia e outros precisaram retornar por não terem se adaptado”.
Uma sala de aula na Amazônia
A missão médica, no entanto, não tinha apenas o objetivo de atender pacientes. Ela também funcionava como sala de aula. Durante os atendimentos, professores aproveitavam cada consulta para reforçar conceitos ensinados ao longo do curso.
Mas o que leva uma faculdade privada de medicina a deslocar professores e estudantes para uma aldeia no interior da Amazônia? Para Virgilio Gibbon, CEO da Afya, a resposta está na própria origem da companhia, que teve foco inicial na educação médica no interior do Brasil.
Ele lembra que as primeiras escolas do grupo surgiram longe dos grandes centros, em regiões que historicamente enfrentavam escassez de médicos e estrutura assistencial. Hoje são 16 unidades de graduação e pós-graduação na região Norte. O Pará tem instituições: em Marabá, Redenção, Abaetetuba e Bragança.
“Temos operações em regiões remotas porque acreditamos que é possível levar educação médica de excelência para lugares onde historicamente faltaram oportunidades.”
Na visão do executivo, experiências como a realizada na aldeia cumprem dupla função: levam atendimento para populações que enfrentam dificuldades de acesso a especialistas e, ao mesmo tempo, formam médicos mais preparados para compreender a diversidade brasileira.
Aline Ribeiro, coordenadora de projetos de extensão e internacionalização da Afya Marabá, diz aos alunos que estudar Medicina na Amazônia é um privilégio difícil de se reproduzir em qualquer outro lugar do País.
A lógica não é apenas educacional. Segundo estudo de impacto social realizado pela própria instituição, cada R$ 1 investido pela Afya em seus cursos de Medicina gera R$ 3,58 em retorno social para as comunidades atendidas. O levantamento estima impacto total de R$ 15,8 bilhões, considerando indicadores relacionados à saúde, geração de empregos e desenvolvimento regional.
Paralelamente à ação da iniciativa privada, o governo federal apresenta números de expansão do sistema de saúde indígena. Nos Estados do Pará, Maranhão e Tocantins, dez Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) realizaram, conforme a nota do Ministério da Saúde:
- mais de 3,2 milhões de atendimentos em 2025, alta de 35% em relação a 2022;
- desde 2023, o orçamento desses distritos aumentou 76,5%, alcançando R$ 699,8 milhões;
- a estrutura reúne 33 Unidades Básicas de Saúde Indígena (UBSI), 92 sistemas de abastecimento de água e dez Casas de Apoio à Saúde Indígena (Casai).
No fim da tarde, enquanto os últimos pacientes deixam a escola, e os estudantes começam a guardar os remédios, aparelhos de medição da pressão arterial, e o festival da castanha retoma seu ritmo. Depois, é a final feminina do tiro com arco.
*O repórter viajou a convite da Afya Marabá
Fonte: Gonçalo Júnior – Estadão
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Irmãs e homem são presos suspeitos de tráfico de drogas no Marajó
Duas mulheres e um homem foram presos na madrugada desta segunda-feira (29) pela Polícia Militar, em Gurupá, no Arquipélago do Marajó, acusados de envolvimento com o tráfico de drogas. O suspeito teria afirmado aos agentes de segurança que fazia entregas de entorpecentes para as suspeitas, que são irmãs.
De acordo com a Polícia Militar, a equipe realizava patrulhamento nas proximidades de um estabelecimento conhecido como Bar do Jerry, quando percebeu uma movimentação considerada típica do comércio de drogas, favorecida pelo grande fluxo de pessoas no local.
Ao se aproximarem, os policiais observaram um homem fugindo. Durante a ação, uma das mulheres teria tentado esconder um invólucro com drogas dentro da roupa enquanto tentava deixar o local.
Além das duas irmãs, os militares abordaram um homem que havia acabado de adquirir uma porção de substância semelhante à maconha. Segundo a PM, ele confessou que trabalhava como mototaxista e realizava o transporte e a entrega de entorpecentes para as suspeitas.
Ainda conforme a ocorrência, uma das mulheres resistiu à abordagem e questionou a revista pessoal por não haver policial feminina na equipe. Diante da situação, os militares solicitaram a presença de uma mulher que atuava na segurança do evento para acompanhar o procedimento como testemunha.
Na presença da testemunha, a suspeita retirou voluntariamente do interior da roupa diversos papelotes de oxi e os entregou aos policiais.
Os três suspeitos foram encaminhados à Delegacia de Polícia Civil, onde permaneceram à disposição da Justiça.
Durante a ação, a Polícia Militar apreendeu 11 porções embaladas oxi, um invólucro contendo várias pedras da mesma droga ainda não fracionadas, três aparelhos celulares e uma motocicleta, que também foi apresentada na delegacia.
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