INOVAÇÃO E CONSERVAÇÃO
Pará discute cadeia produtiva, inovação e mercado global do cacau na COP 30
COP 30
O diretor de Comunidades Tradicionais e Comercialização da Secretaria Estadual de Agricultura Familiar (Seaf), Anderson Serra, representou o Pará na discussão e destacou que o estado já tem cerca de 150 fábricas de chocolate da agricultura familiar e que muitas famílias descobriram como produzir amêndoas de alta qualidade, inclusive, algumas já são reconhecidas, com prêmios nacionais e internacionais.
Anderson frisou iniciativas paraenses que devem servir de inspiração e ampliadas, por serem boas experiências de sistemas agroflorestais que impactam além da questão econômica, com benefícios sociais e ambientais.
“Assim, a cacauicultura vai continuar colaborando com o incremento de renda, com paisagens mais diversificadas, com a recuperação de áreas degradadas, em agrofloresta, consolidando a conservação da biodiversidade e capturando carbono”, pontuou o diretor.
Legislação para proteger a lavoura
Marta Silva, coordenadora da Fundação Viver, Produzir e Preservar que atua no apoio a agricultores familiares na região da Transamazônica, também participou do painel e afirmou que a economia criativa tomou força e o cacau tem sido escolhido como estratégia de produção com muitas possibilidades.
“O cacau possibilita a economia circular, ele possibilita uma estratégia organizativa das pessoas que, para além do individual, é uma cultura que traz a interação com outras culturas”, disse Marta Silva. Ela defendeu o reconhecimento do cacau como economia circular e a proteção da lavoura pela legislação, em caso de perda total em situações de desastre.
Também participaram da discussão Marcelo Carin, pesquisador do Instituto de Pesquisas Científicas do Amapá (IEPA) e da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR); José Raul dos Santos Guimarães, da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac); e Marcos Rocha, chefe da Divisão de Produção Familiar e coordenador do Programa Estadual do Cacau da Secretaria de Agricultura do Acre, com o debate mediado pelo secretário Executivo do Consórcio Amazônia Legal (CAL), Marcello Brito.
Marcelo Carin, disse que o cacau tem nichos específicos espalhados pela Amazônia. “Nós adotamos isso como estratégia mercadológica. Nós temos cooperativas que estão funcionando”, comentou Carin, que ressaltou a importância do cacau para o PIB amazônico.
Maior produtor
O Pará é o maior produtor de cacau do Brasil e é referência mundial no cultivo em sistema agroflorestal (SAF). Medicilândia, no sudoeste do Estado, é o município com a maior produção de amêndoas de cacau do país.
Fonte: Governo PA
COP 30
Na COP30, Brasil descobre a amazônia com ufanismo, epifania, caricatura e distorções
Um efeito interessante da fala preconceituosa do chanceler alemão, Friedrich Merz, sobre Belém foi assistir à solidariedade dos brasileiros com a capital paraense.
Das respostas inevitáveis do prefeito Igor Normando e do governador do Pará, Helder Barbalho, à fala palanqueira de Lula e ao “desabafo” figadal de Eduardo Paes, passando pela algazarra de gente de todas as partes do país pelas redes sociais, a repercussão foi grande.
COP30
Descontados os excessos ufanistas, a resposta a Merz parece fazer parte de uma onda maior de empolgação dos brasileiros com Belém –e aqui mora a novidade.
É como se uma parcela considerável de nossa população, sobretudo os não amazônidas que participaram in loco da conferência do clima da ONU, tivesse descoberto um Brasil novo.
Um termômetro dessa empolgação foi a cobertura das emissoras de TV e os vídeos que os onipresentes “produtores de conteúdo” de todas as áreas espalharam pela internet, em que a empolgação-quase-epifania se revelou por inteiro. O entusiasmo podia ser com a paisagem, o clima (ah, o espetáculo da chuva diária!), a culinária, o sotaque etc.
Como tentar explicar o fenômeno?
Jamais a região amazônica abrigou um evento global do porte da COP30. Até aí, a maioria das capitais brasileiras tampouco —são historicamente distinções restritas ao eixo Rio-São Paulo-Brasília e, em menor escala, a algumas outras capitais do Sudeste, do Sul ou do Nordeste.
Ocorre que outras regiões periféricas em relação a SP-Rio despertam bem mais interesse dos brasileiros, como comprova o recém-divulgado módulo de turismo da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua do IBGE, com dados de 2024. Em primeiro lugar, é para poucos: o percentual de domicílios nos quais pelo menos um morador declarou ter viajado foi de 19,3%.
O levantamento confirma a tendência histórica de que quem viaja no país busca, em primeiro lugar, sol e praia (44,6%) e, em segundo lugar, cultura e gastronomia (24,4%). Natureza, ecoturismo ou aventura são o principal motivo para 21,7%. Na amazônia tem tudo isso, até praia (na maioria fluvial), mas o brasileiro viaja pouquíssimo para lá.
O perfil de consumo da mesma pesquisa permite ver onde os viajantes deixam seu dinheiro. Das 27 unidades da federação, o Pará ocupa a 24ª posição no ranking de gasto diário com pernoite (em gasto médio, a 23º). Não há, entre os dez primeiros das listas, nenhum estado da Amazônia Legal ou do bioma amazônico –a maioria aparece na rabeira.
Trata-se de uma ignorância secular. Quem melhor conhece a amazônia, claro, são seus habitantes, os povos originários e seus descendentes. Depois da invasão europeia no século 16, parte desse conhecimento passou a ser codificado pelo exploradores do Velho Continente, a começar por naturalistas britânicos (Henry Walter Bates, autor do clássico “Um Naturalista no Rio Amazonas”, e Alfred Russel Wallace) e alemães (Spix e Martius).
Só no século 20 a ciência brasileira despertaria de vez para a riqueza e o potencial do bioma amazônico.
Mas o interesse estrangeiro pela região se estende até os dias atuais, inclusive entre viajantes comuns. Embora ressalte a atual escassez de dados do turismo nacional, a professora da USP Mariana Aldrigui, pesquisadora de políticas do setor, afirma que europeus e americanos compram mais e há mais tempo que os brasileiros pacotes para o Amazonas e o Pará mais caros e com maior permanência e alcance territorial –em cruzeiros, os forasteiros são ainda mais predominantes.
Em 1978, Aldir Blanc e Maurício Tapajós compuseram “Querelas do Brasil”: “O Brazil não conhece o Brasil/ O Brasil nunca foi ao Brazil”, cantava Elis Regina, que imortalizou a canção. Três anos depois, viria a público “Notícias do Brasil”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, que adverte: “A novidade é que o Brasil não é só litoral/ É muito mais, é muito mais que qualquer zona sul/ […] Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil/ Não vai fazer desse lugar um bom país”.
Virou o século, e a emergência climática de certo modo obrigou que o país se voltasse para a amazônia –a COP30 é um reflexo da inflexão.
Se por um lado produz euforia, como se viu na defesa à presepada de Merz e na exaltação à cidade-sede, a descoberta tardia gera também aberrações –caso da leitura grotesca e equivocada sobre a apresentação do tradicional Cordão da Bicharada–, olhar exótico, caricaturas e exageros, como superestimar alguns dos problemas locais –muitos, diga-se, são de fato criticáveis, e o incêndio na reta final só deu combustível aos críticos– ou querer transformar preços de comida em escândalo nacional.
Resta saber se a revelação surtirá mais interesse e ação sobre a região e seu papel crucial para a pauta que levou todos até ali.
Fonte: Fabio Victor -Folha de São Paulo
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